16/09/2013

Os Opostos

Contar-vos-ei uma história que me surpreendeu em sonhos, mas que se disse real. É sobre um pseudo-amor. Diria até que é sobre um amor tão intenso que virou ódio. Mas, passemos ao que realmente interessa. Jorge era um rapaz de um bairro problemático, onde partilhava uma casa com a sua avó, com os seus 18 anos acabados de fazer, e sem expectativas para o futuro. Emília era uma rapariga de 17 anos, que sempre foi protegida de tudo e de todos. Seria o cliché de «Romeu e Julieta» que os viria a juntar, num ameno dia de Verão, em que o Sol não brilhava tanto quanto os olhos de Emília assim que vislumbrou Jorge no café. Ambos tinham olhos azuis, o que atraiu imediatamente Emília, que sempre se disse apaixonada por olhos de cor de céu espelhado no mar. Agora, o que fez com que ele olhasse para ela, ninguém sabe. Ela era tudo o que ele não era. E nenhuma das miúdas com que ele saía se assemelhavam àquela menina de aparência doce. O que ele não conhecia era o interior amargo que ali havia. A amargura tão típica dela que ainda fez com ele, depois de o descobrir, a amasse mais. Gostava do sabor agridoce dos lábios dela. Do sorriso com o olhar. Do feitio complicado. Das discussões. Dos apertos. Dos "amassos". Mas, o que ele não suportava era o quanto ela queria que ele mudasse. É óbvio que Ema - assim ele a tratava, gozando e dizendo que ela era prima de uma avestruz - não era o tipo de mulher que atraía, por norma, Jorge. Mas, na verdade, Jorge também não era o tipo de homem de Emília, que com os seus dezassete anos, já escondia muito em si. No entanto, ela não acreditava que existisse um tipo. Um gosto. O seu "tipo" era o amor. E nada mais. Todavia, falemos da aparência de Jorge - que alcunha não tinha sido atribuída ainda, se bem que no calor de um beijo ela lhe chamou de "Eros", o deus grego do amor. Loiro, olhos azuis, sardas que realçavam a maçã do rosto e um piercing no lábio, que lhe atribuía um ar de delinquente, não que algo tão pequeno seja capaz de falar por si só, mas era o enquadramento de tudo que gerava esta primeira impressão. Porém, Ema nunca ligou a estes pormenores ridículos. Aliás, o piercing, na sua opinião, tornava-o "mais apetecível", foram estas as suas palavras, quando o beijou pela primeira vez. Mas, então, porque desejava tanto que ele mudasse? Ele fumava. Droga. Drogava-se. O Jorge de manhã, era diferente do Jorge do fim do dia, já consumido pelo fumo. E ela amava o Jorge das manhãs. Não o Jorge que não sabia o que dizia. Ela não sabia se era ele quem a amava, ou se eram as drogas que o faziam amá-la. Aquele não era o homem autêntico por quem ela se interessou, mais tarde se apaixonou, e que agora amava - não perdidamente, pois Ema nunca se perdia de vista. Mas ele não queria mudar. Por muito que fosse viciado nela e no seu amor, ele estava demasiado agarrado às drogas. Segundo ele, «A adrenalina do não sentir e o sentir ao máximo. O viver anestesiado, mas sentir tudo». Ainda assim, ela suportou isso. E muito mais que nunca me revelou, mas mais tarde vim a saber. Porém, as diferenças começaram a ser evidentes, cada vez mais. Ela não se sentia integrada do grupo de amigos dele, e vice-versa. A paixão de Ema por música era fantástica e notória, mas, eles não ouviam a mesma canção. E todos sabemos que «não se ama alguém que não ouve a mesma canção», mas ela fingiu não saber, porque o que os outros diziam nem secundário era, quanto muito, terciário seria. Entregou-se a ele. Tornaram-se um só. Mas, eram um ser muito heterogéneo. A desconformidade era mais clara do que a cal das paredes. E, foi um dia no calor de um estalo que gerou um beijo, que ela percebeu que ele não era para si. Jorge não valia a pena, nem a galinha, quanto mais a avestruz. Entregou-se a ele uma última vez. E foi único, porque a última vez é sempre melhor do que a primeira. Aqueles tempos que ela passou com ele, esqueceu-os rapidamente. Só restaram duas coisas: o cheiro dele numa camisola velha de Emília, e o sangue dele na sua roupa, quando o encontrou morto - tinha-se suicidado. Junto a ele tinha um bilhete - minto, não tinha. isso seria demasiado cliché, e o quanto eles odiavam os clichés de merda. Ele tinha cravado, com um faca, uma mensagem no seu braço, que dizia: «JSQTAEA». Só ela soube o que queria aquilo dizer. Ela e eu. Que umas primaveras após o sonho, vivi eu mesma a história, tal e qual - o sonho tinha razão quando se revelou como sendo real. Vou desde já revelar o segredo. "JSQTAEA", significa: Já Sabes Que Te amo Ema Avestruz. Mais tarde, aprendi em Física que os opostos se atraem. Ele era o Norte e eu era o Sul. E sabem? Eu perdi o Norte..

10 comentários:

  1. acho que foi, muito sinceramente, o texto mais fantástico que já li. porque não tem clichés, não é previsível, eu estava a lê-lo e não sabia o que vinha a seguir - e acredita, muitas vezes leio textos previsíveis. és fantástica, e se tinha dúvidas, perdi-as.

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  2. obrigada, são dois blogs super diferentes.

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  3. é o que acontece comigo, tenho demasiadas pessoas cá dentro, e manter um só blog é impossível.

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  4. Nossssa, esta tão....tão...tão....tão perfeito e tão profundo, amei mesmo...nao há palavras princesa *-*
    By: Catarina F. <3

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  5. Nossssssa, esta tão....tão....tão....tão perfeito e tão sentido ;o....nem tenho palavras princesa *o* <3

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  6. Um enredo espetacular que nos conduz a um final inesperado. Estou mesmo sem saber o que dizer! Adorei!

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  7. Desde que inventaste este novo blog que andas bem mais activa, adoro!

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  8. se eu tivesse palavras para este texto, a sério, eu escrevia cem palavras... está perfeito, maravilhoso e profundo. está imprevisível, está completamente fantástico. prendeu-me do início ao fim!!
    mas...isto aconteceu contigo?

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