04/01/2014

Distorcidos

-Teremos o que é preciso?
-Talvez não, mas isso importa?

E começava assim a história assombrosa de ambos. Ela conhecedora da decisão que tomava, ele embriagado pelo sentimento que nutria. Mas, apesar de tudo, ambos sabiam que seria um tiro no escuro, ou, um valente salto para um poço sem fundo.
Conheciam-se, pensavam.
Amavam-se; talvez, em dias mais tórridos.
E foram todas estas imagens reflectidas em espelhos diferentes – mas igualmente frágeis – que tramaram tudo.

Ela pensava conhecê-lo, mas enganava-se. Dele quase nada sabia. O nome era real, bem como o seu corpo mas, tudo o resto nele, seja passado ou futuro não eram o presente que ela queria ter. Idealizou alguém que existia apenas no fundo negro de um abismo escarpado e que estava preso há muito.

Com ele as coisas foram simples. A embriaguez passou-lhe; veio a ressaca. Quando deu por si estava sóbrio outra vez, sóbrio e sem sentimentos. Já não a amava.

Para ele foi fácil, bastou trocar de bebida; para ela a história foi um pouco diferente. Ela também trocou a bebida, para coisas mais pesadas, juntou-lhe drogas e, no fim do dia, juntou-lhe o valente salto para um poço sem fundo onde apenas a corda que tinha ao pescoço a salvara de cair para a vida.

-Teremos o que é preciso?
-Talvez não, mas isso importa?

Realmente não importava, para ele.
Os dias passavam e ele voltava a estar embriagado.

Porém, os dias passavam e ela não voltava a estar viva.

Um texto de Ricardo Cunha

14 comentários:

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    1. Muito obrigado Two!

      Espero que continue a acompanhar a minha rubrica aqui e, claro, este blogue.


      Para a semana, sábado, há mais!

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  2. adorei, adorei, adorei! há muito tempo que não lia algo tão bom. digno de um livro, sem dúvida! adorei mesmo:)

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    1. Acho que esses elogios são daqueles que qualquer um gostava de receber!

      Agradeço, imenso!

      Não será um livro, mas é uma rubrica que é para continuar!

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  3. Foi mesmo lindo, o Ricky anda a dar-lhe bem!

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    1. Muito obrigado!

      Espero que o próximo continue a ser excelente!

      Ficarei à espera de mais um comentário no próximo sábado!

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  5. Wow! O retrato perfeito de muitas relações.

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    1. Tenho que concordar Cláudia...

      Acho que todos deambulamos e tocamos, mesmo que ao de leve, neste tipo de relações, infelizmente...

      Mas a vida rola e os textos vão aparecer, novamente, para a semana! :)

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  6. adorei cada palavra deste texto, consegues mesmo cativar com a tua escrita. parabéns, Ricardo!

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    1. Obrigado!
      É bom saber!

      Amanhã já há mais!

      Uma pergunta, o Anónimo terá nome?

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