Em todos os 365 dias do ano, há alguns que, por mais que se tente,
nada tem o mesmo sabor quando não é partilhado; quando se está sozinho. Um
desses dias, para George, era o 14 de Fevereiro. O ódio que ele tinha foi originado
por uma série de acontecimentos que quase o mataram. A ele quase, porém, a sua
mulher, não teve a sorte dos “quase” e “se”. Ela morreu.
Um acidente de carro foi apenas o princípio para muita coisa. A mulher
de George não conseguiu soltar-se do cinto, mesmo com os esforços do marido,
foi impossível. Por sua vez, George, por causa de tentar salvar a sua mulher
acabou desfigurado por causa das chamas que começaram a aparecer no carro.
Seis anos. A vida de George tornou-se num inferno há precisamente seis
anos. Passado um ano de suposta recuperação, George começou a montar um ritual
para amenizar o ódio que sentia deste dia. Este ritual odioso também incluía
chocolates e flores, mas não da forma esperada.
As preparações começavam sempre uma semana antes.
Era preciso escolher o par perfeito, a roupa perfeita, a ementa, os
chocolates e, claro, as flores. Tudo tinha que encaixar, era necessário que
existisse uma simbiose perfeita entre cada um dos elementos. Afinal, era um
ritual e, como tal, nada podia estar fora do sítio, nada podia faltar e tudo
tinha que estar a condizer.
A semana começava por um passeio matinal pelo parque. Com George ia
sempre Lucky, um cão rafeiro, desmazelado que reflectia bem o dono que tinha.
Este passeio tinha apenas um objectivo, escolher o par ideal para a noite do
dia 14. Seria difícil escolher exactamente como ele queria, pois não havia
ninguém que preenchesse os requisitos todos do molde que existiu na vida dele.
O molde era simples visto de fora: estatura média, cabelo preto e pele morena.
Mas, por muito que George quisesse, o seu par nunca seria como Alicya – a
esposa morta.
Este ano, esta tarefa de escolher o par ficou extremamente facilitada.
Bastou umas curvas no parque e, sem querer, George esbarrou contra uma mulher
bastante parecida com Alicya. Não precisou de procurar mais, viu ali o modelo
perfeito, o seu nariz enganava-o misturando um cheiro difuso do corpo dela, simulando
o perfume da sua mulher morta. Era imperativo segui-la. Era urgente saber onde
ficava a sua casa pois, caso contrário, o dia 14 não iria ter significado. Foi
seguindo-a trilho após trilho até que chegaram a uma rua mais ou escondida e lá
viu onde a casa ficava. Chegou mais perto, precisava de ver se apenas ela
morava na casa ou havia mais alguém.Depois de alguns minutos a observar de fora o interior, dentro da sua cabeça a sala de jantar começou a remodelar-se fazendo uma breve previsão de como seria a noite de sexta.
O tempo corria e ele deixava-se levar pelo filme que a sua cabeça ia
criando porém, era tempo de sair dali, era necessário sair dali.
Continua...
Um texto de Ricardo Cunha
Estou tão, tão, tão curiosa! Um texto ao estilo que tão bem nos habituaste Ricardo!
ResponderEliminarObrigado Cláudia!
EliminarOs dias não têm sido os melhores para escrever, por isso posso confessar que não estou como gosto e como habituei o nosso grupo, mas espero retomar a esse lugar o mais rápido possível!
Este estilo como sabes é onde me sinto mais à vontade e o que de melhor sei fazer e, sendo assim, sábado há continuação e será, espero eu, mais do mesmo!
oh, o ricardo sempre com a sua escrita cativante!!:)
ResponderEliminarObrigado bé!
EliminarQuero que assim continue e não me farto de o dizer! Escrever para quem me tem seguido aqui e nos meus blogues é um privilégio!
Prometo que quando estiver melhor me lembro de ver isso melhor e NUNCA PARES DE ESCREVER!!
ResponderEliminarOh meu Deus, tu deixas-me sempre com um nervoso miudinho, não sei bem explicar. Gosto tanto de te ler. Estou ansiosa pela continuação!
ResponderEliminarObrigado, Blue!
EliminarEspero que o final seja do vosso agrado!
Gostei da história e vou continuar a acompanhar :)
ResponderEliminarEspero que continues mesmo Inês!
EliminarTodas as sugestões e críticas são bem-vindas!
confesso que já tinha saudades de ler algo teu por aqui, Ricardo. e essa capacidade que tens de me deixar na expectativa: é de louvar. fico à espera da continuação desta história. parabéns.
ResponderEliminarPodes sempre matar saudades no meu blogue no «Meia-noite intermitente»!
EliminarSe é de louvar essa capacidade significa que não te prendes, nem te prendem facilmente ao que costumas ler - corrige-me se estiver errado!
A continuação/final irá aparecer sábado!