Cheirava a amor, a casa da minha avó. Todos os compartimentos daquela que foi um dia a minha segunda casa tinham um toque especial. Um toque que só ela sabia dar. Há um buraco negro entre o antes e o depois. O depois que é o agora. E o antes que é a felicidade. Que só ela transmitia. Alguém que com os seus setentasemuitos dizia esperar a morte e mesmo assim nos envolvia num abraço de alegria e num beijo de leite com açúcar. Lembro-me de temer o som de cada ambulância ou de um telefone a tocar a horas que já ninguém liga a ninguém. Lembro-me de ficar aterrorizada sempre que ela demorava mais de cinco minutos a abrir a porta. Lembro-me de ter mais medo de perdê-la do que do escuro. E dói-me porque são só lembranças. Algumas mais vagas do que aquilo que eu queria. Agora a casa da minha avó mudou de nome. É a casa do meu avô. Ele sempre lá morou, mas nunca com a mesma intensidade que ela. Aquela casa transbordava de avó. Hoje ainda me custa sentar naquele que sempre foi o lugar dela. Custa-me entrar lá e não a encontrar. Passaram-se sete anos, seis meses e treze dias, sei-o bem. No entanto, também sei que vou chorar a morte dela até que o meu coração páre e eu fique fria. Ainda mais fria do que estou agora, sem ela. Sem o abrigo daquela que foi a casa do meu coração, o abrigo das minhas dores e o sítio onde reinava a esperança de encontrar a luz ao fundo do túnel. Onde festejei aniversários. Onde joguei ao quarto escuro. Onde lhe li histórias. Onde os papéis se inverteram e fui eu a cuidar dela. Hoje sinto-me mais vazia, sem a casa da minha avó.
Sei o que sentes.. Só substituindo a avó, pela mãe..
ResponderEliminarPara lá de todo o sentimento que é evidente e que torna tudo isto ainda mais belo, adoro as expressões que usas, como nesta parte que gosto muito: "Alguém que com os seus setentasemuitos dizia esperar a morte e mesmo assim nos envolvia num abraço de alegria e num beijo de leite com açúcar. Lembro-me de temer o som de cada ambulância ou de um telefone a tocar a horas que já ninguém liga a ninguém". Escreves como pouca gente e tocas o meu coração. Lindíssimo como já disse.
ResponderEliminarTens razão, aprendi com isso :)
ResponderEliminarQue belo texto tu aqui tens! Também tenho saudades da casa da minha... E dos bons momentos que lá passei. Ficam as recordações, que serão, com certeza, as melhores que temos!
Confesso que só consegui ler o início do texto. Custa-me pensar na ausência da minha avó. Mas olha querida, terás sempre a casa da tua avó: na memória.
ResponderEliminarquerermos muito uma coisa é assustador, porque tememos que ela nunca venha a ser realmente nossa. mas não há problema se sonharmos sempre um pouco mais.
ResponderEliminareu não quero imaginar o dia em que a minha avó não estará mais comigo. nem sequer consigo tocar nesse assunto com ninguém. espero que esse dia ainda esteja longe!
Aquilo que tu disseste é muito do que eu sinto quando também tu me comentas.
ResponderEliminarNão tens que agradecer, acho que não faço mais que a minha obrigação e explico-te porquê: a minha sanidade deve-se muito a escrever e ler. Há, portanto, pessoas que vão ao psiquiatra, eu leio pessoas que tornem as coisas mais leves. Essa é uma capacidade que quase quase sempre tens, tornar as coisas mais leves. Às vezes falas de coisas tão duras, como neste post por exemplo, mas mesmo assim não deixam de ser belas, doces e boas de ler. Essa é até uma capacidade que mesmo eu gostava de ter mais vezes. E enfim eu aprecio muito a beleza das coisas, por isso obrigada digo-te eu só por isso - que já é muito. Continua, só isso, continua!!!