13/09/2014

xiii. tinta

Escrevo-te a tinta permanente num dia que é tão teu. Chegas hoje à quinta capicua da tua vida com o mesmo espírito jovem que sempre tiveste desde que te conheço. Dizes-me muitas vezes que me conheces melhor do que eu mesma me conheço. Porque me viste nascer. Porque me viste sofrer numa incubadora sem poderes fazer nada. Porque a primeira vez que sorri foi para ti e porque me levavas à escola todos os dias. Aturavas-me os caprichos. Os «não quero ir para escola» quando me dizias que tinha de ir para a escola e os «não quero ficar em casa» quando me dizias para ficar em casa então. Orgulho-me do teu sorriso quando falas de mim. Quando me contas que eu dizia que o meu papá era um comilono. E orgulho-me ainda mais de ser a menina do papá que sou. Mas - há sempre um mas - não me conheces melhor do que eu. Só eu sei o que me vai por dentro, e por vezes nem eu sei. Ainda que olhes para mim e percebas que eu não estou bem, não sabes o que me deixa assim. Desde há uns anos que te conto as coisas pela metade. Ou pelos três quartos. Há pedaços de mim que eu guardo. Até de ti. Hoje já não chego até ti a dizer «papá, tou tiste». Já não me contas a história do sapo para eu adormecer. Já não adormeço no teu colo e já não te vejo como um ser imortal. Hoje aos meus olhos és mortal e isso dói-me. Sempre foste o meu super-homem. Eras de aço, como sempre me disseste. Nunca adoecias, nunca te queixavas. Estavas. Só estavas. Hoje sei que não és imune a todos os vírus nem bactérias e que um tiro também te pode matar. Preferia-me inocente e capaz de acreditar que ninguém te podia fazer mal. Obrigada por me teres feito acreditar nisso. Ainda que fosse ilusão. Tens sido o melhor pai do mundo. Galinha. Muito galinha. Vejo-me tanto em ti. Sou tão tu que às vezes assusto-me. Ainda que esconda. Tu és um temperamental assumido. Sei-te capaz de mover mundos e fundos em prol daquilo que acreditas. Sei-te honesto e alérgico a hipocrisias. Sei-te cabeça dura e capaz de quebrar laços de sangue graças ao orgulho. Sei-te papá. O meu papá. O eterno papá. Com ou sem cabelos brancos. Sei-te aqui. Bem perto de mim. Sempre. Obrigada por seres o que és. Parabéns. 

4 comentários:

  1. Que texto lindo Lúcia. Que esse amor se mantenha sempre assim, tão puro!!

    r: Ai nem me digas nada. Fiquei mesmo frustrada quando reparei...

    ResponderEliminar
  2. Que bela homenagem! Por muito que não seja imortal, é-te imortal. Porque mesmo que um dia alguém to tire, nunca ninguém o vai arrancar de dentro de ti.

    ResponderEliminar
  3. mais uma menina do papá, como eu! :)
    gostei tanto destas palavras!!*

    ResponderEliminar