Pergunto-me como será a caminhada de um prisioneiro condenado à pena de morte quando vai cumprir a sua sentença. Todos caminhamos em direção à morte. Mas não em direção à morte certa. Podemos morrer às 15h55, em 2055 ou noutra altura qualquer. Não há uma hora do óbito já escrita antes do coração parar. Não há uma maneira de morrer definida. Tanto podemos morrer a descascar batatas, como a escalar o Evereste ou, mais uma vez, noutra situação qualquer. Saber, previamente, que vais morrer às quatro da tarde do dia 19 de janeiro é demasiado específico. E que te vai ser administrado um “cocktail da morte” ainda mais o é. Pergunto-me o que cruza a mente de uma pessoa nessas condições. Não se se sente culpada. Ignorando todo esse barulho que vem de dentro dela e provavelmente a atordoa quase mais do que as substâncias que lhe vão injetar. Mas sim o silêncio. O vazio que deve ser saber que vai morrer. E que o mundo sabe e ninguém faz nada por ela. Ninguém para o mundo porque ela morre. As pessoas que o olham já o admitem como morto e olham-no com indiferença. Os familiares talvez lhe chorem a morte. Talvez. Acontece-nos a mesmo a nós – isto porque mesmo que sejamos psicopatas assassinos nunca no nosso país seríamos submetidos a tal coisa -, que morremos e provavelmente teremos entes queridos a chorar por nós, talvez o mundo deles páre, mas nunca o mundo inteiro. Ainda que queiramos acreditar nisso. Vivemos para marcar a diferença e um dia morremos e vão chorar por nós, depois vão-nos levar flores todas as semanas e, eventualmente, passadas décadas será enterrado por cima de nós outro corpo e mais ninguém saberá que estamos ali, que vivemos, que fizemos e acontecemos. Só invejo o prisioneiro porque sabe como morre. E quando vai morrer. Nada para ele é realmente mais certo do que a morte. Assim o é para todos nós só que não o queremos admitir. Mas apercebi-me, enquanto escrevia, que há uma falha aqui. Não no prisioneiro. Não em nós. Mas no mundo. Ele chega a parar por completo. O nosso mundo chega a parar por completo quando morremos. O nosso mundo, o nosso pequeno grande mundo que chora por nós. Seis mil cento e setenta e oito pessoas morrem por hora. Que seis mil cento e setenta e oito mundos parem por hora.
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