Com o tempo – ainda que não muito
tempo – tenho vindo a aprender a gostar de mim. Obviamente, se foi necessário
eu aprender a gostar de mim é porque eu não gostava. Ou pensava que não
gostava. Sempre analisei muito bem os prós e os contras de cada situação, e mesmo
que me seja mais natural e fácil encontrar os contras, os prós evidenciam-se,
nem sempre se evidenciaram, mas agora evidenciam-se porque eu quero e eu sou
dona de mim. E é isto que me faz gostar de quem sou (ou penso que sou): a minha
força de vontade. Posso não alcançar todos os objectivos, posso até nem seguir
o caminho inicialmente delineado, mas de alguma forma eu sei que me vou
superar. No entanto, acabo por me levar à exaustão. Tanta é a convicção que
acabo por me esquecer que sou feita de carne e osso. Massacro-me com reflexões
exageradas, sou tão racional que chego a não saber sequer o que é sentir algo.
Tanto quero superar-me que acabo por me “consumir” lentamente. Porém, falo em “superar-me”
e não em “superá-los”. Nunca quis superar ninguém a não ser a mim mesma, e isso
eu aprecio em mim. Acredito piamente que se me superar, superarei o mundo, mas
isso será uma consequência e não uma causa. Gosto da minha mente envelhecida,
ainda que imatura, no corpo da miúda de dezassete anos que sou, que sempre foi além
da idade que tinha. Não gosto de não saber o que gosto porque sempre gostei da
minha convicção face à vida. Adoro os meus trocadilhos; adoro ser o que nunca
pensei ser, sem nunca deixar de ser um ser que eu sempre quis ser. Adoro a
escritora em mim, ainda que parte de mim - grande parte de mim, aliás - pense
que eu de escritora pouco tenho. Apenas me deixo vaguear pelas palavras,
perco-me nas minhas diversas divagações. Odeio ter demasiada gente dentro de
mim, odeio a minha necessidade quase obsessiva de me sentir rodeada de gente,
ainda que não seja de gente realmente real. Gosto de ser irónica, se bem que
por vezes roço o sarcasmo e isso irrita-me, é, odeio o meu sarcasmo. A minha
filosofia barata deixa-me orgulhosa sem eu saber bem porquê. Há noites em que
folheio o meu caderno, aquele, o da capa preta, e orgulho-me do que escrevo,
ainda que saiba que nunca o vou partilhar com mais ninguém. Odeio isso, a minha
falta de capacidade de partilhar com quem me rodeia aquilo que mais orgulho dá:
a escrita. Mas sinto que se o fizesse iria estar a arruinar aquilo que a
escrita representa para mim. A escrita é um abrigo. Metaforicamente,
literalmente, e qualquer outra coisa terminada em mente. Eu odeio a Lúcia que
chora, e a Lúcia que escreve é a Lúcia que chora porque a escrita é muitas
vezes o reflexo das minhas lágrimas. Não quer dizer que eu chore quando
escrevo, mas as minhas palavras choram, o sentimento fica lá, bem retido, ainda
que eu não o expresse da forma mais natural. Adoro o meu sorriso, não o sorriso
em si, mas o que ele trás consigo. Consigo odiar amar-me e amar odiar-me, mas
no final do dia é o amor-próprio que prevalece. Reparem, não falo em defeitos
ou qualidades. Falo em gostos que eu tenho, e eu posso não gostar e não ser um
defeito, até porque, muitas das vezes, eu acabo por gostar daquilo que me faz
mal a mim e aos outros. Gosto de mim e gosto de gostar de mim, e todas as vezes
que eu o negue, eu estarei a exprimir um estado de espírito e não uma verdade. E
como alguém que eu cada vez mais adoro disse: «Não sou da altura que me vêem,
mas sim da altura que os meus olhos podem ver».
Muitas das coisas que escreveste conseguia dizê-las também sobre mim. :)
ResponderEliminaroh fico contente por saber que gostas do que escrevo
ResponderEliminarentão estás como eu :c
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