19/11/2013

O que o meu espelho não mostra

Com o tempo – ainda que não muito tempo – tenho vindo a aprender a gostar de mim. Obviamente, se foi necessário eu aprender a gostar de mim é porque eu não gostava. Ou pensava que não gostava. Sempre analisei muito bem os prós e os contras de cada situação, e mesmo que me seja mais natural e fácil encontrar os contras, os prós evidenciam-se, nem sempre se evidenciaram, mas agora evidenciam-se porque eu quero e eu sou dona de mim. E é isto que me faz gostar de quem sou (ou penso que sou): a minha força de vontade. Posso não alcançar todos os objectivos, posso até nem seguir o caminho inicialmente delineado, mas de alguma forma eu sei que me vou superar. No entanto, acabo por me levar à exaustão. Tanta é a convicção que acabo por me esquecer que sou feita de carne e osso. Massacro-me com reflexões exageradas, sou tão racional que chego a não saber sequer o que é sentir algo. Tanto quero superar-me que acabo por me “consumir” lentamente. Porém, falo em “superar-me” e não em “superá-los”. Nunca quis superar ninguém a não ser a mim mesma, e isso eu aprecio em mim. Acredito piamente que se me superar, superarei o mundo, mas isso será uma consequência e não uma causa. Gosto da minha mente envelhecida, ainda que imatura, no corpo da miúda de dezassete anos que sou, que sempre foi além da idade que tinha. Não gosto de não saber o que gosto porque sempre gostei da minha convicção face à vida. Adoro os meus trocadilhos; adoro ser o que nunca pensei ser, sem nunca deixar de ser um ser que eu sempre quis ser. Adoro a escritora em mim, ainda que parte de mim - grande parte de mim, aliás - pense que eu de escritora pouco tenho. Apenas me deixo vaguear pelas palavras, perco-me nas minhas diversas divagações. Odeio ter demasiada gente dentro de mim, odeio a minha necessidade quase obsessiva de me sentir rodeada de gente, ainda que não seja de gente realmente real. Gosto de ser irónica, se bem que por vezes roço o sarcasmo e isso irrita-me, é, odeio o meu sarcasmo. A minha filosofia barata deixa-me orgulhosa sem eu saber bem porquê. Há noites em que folheio o meu caderno, aquele, o da capa preta, e orgulho-me do que escrevo, ainda que saiba que nunca o vou partilhar com mais ninguém. Odeio isso, a minha falta de capacidade de partilhar com quem me rodeia aquilo que mais orgulho dá: a escrita. Mas sinto que se o fizesse iria estar a arruinar aquilo que a escrita representa para mim. A escrita é um abrigo. Metaforicamente, literalmente, e qualquer outra coisa terminada em mente. Eu odeio a Lúcia que chora, e a Lúcia que escreve é a Lúcia que chora porque a escrita é muitas vezes o reflexo das minhas lágrimas. Não quer dizer que eu chore quando escrevo, mas as minhas palavras choram, o sentimento fica lá, bem retido, ainda que eu não o expresse da forma mais natural. Adoro o meu sorriso, não o sorriso em si, mas o que ele trás consigo. Consigo odiar amar-me e amar odiar-me, mas no final do dia é o amor-próprio que prevalece. Reparem, não falo em defeitos ou qualidades. Falo em gostos que eu tenho, e eu posso não gostar e não ser um defeito, até porque, muitas das vezes, eu acabo por gostar daquilo que me faz mal a mim e aos outros. Gosto de mim e gosto de gostar de mim, e todas as vezes que eu o negue, eu estarei a exprimir um estado de espírito e não uma verdade. E como alguém que eu cada vez mais adoro disse: «Não sou da altura que me vêem, mas sim da altura que os meus olhos podem ver».

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