25/01/2014

Assombrado

Abraçavam-se freneticamente.
Ele queria fugir de toda aquela situação estranhamente desconfortável. Ela só queria que durasse, talvez mais uns segundos, talvez a eternidade; não os distinguia pois a noção de tempo perdia-se quando mergulhava naquele mar tão presente, mas, ao mesmo tempo, tão desconhecido.
Era o pesadelo de todas as noites. Ela voltava a deitar-se com ele. Voltavam a repetir-se abraços, desejos caóticos de união e, as não tão estranhas, insónias.
Era pesadelo, pois quis o destino que assim fosse – mesmo não acreditando nele, desculpava-se, utilizando-o.
Não movera mais montanhas ou agitara mares para a salvar ou tê-la de volta.
Partiu.
Ela partiu numa viagem sem volta, que começara no caminho que ele construiu ao desistir.

A vontade mútua de se aconchegarem por breves segundos de nada valia; de nada vale. A vontade transformou-se em angústia que, por sua vez, deu lugar a pesadelos.
Mas ele gostava.
Era assombrado todas as noites pelo erro que cometera; era assombrado por ela e pelos abraços que o deixavam desconfortável, mesmo querendo-os.

Hoje a noite não seria diferente.
Ela morreu, mas ele não sabe.
O rito era diferente hoje depois de um aperto inesperado ter surgido no peito despido             .

Aconchegou-se solenemente nos lençóis, centrando o corpo na cama, estendo os braços ao longo do corpo murmurava:
-Assombra-me mais uma vez por favor; só mais uma vez.

Só mais esta noite.


Um texto de Ricardo Cunha



14 comentários:

  1. "Ela partiu numa viagem sem volta, que começara no caminho que ele construiu ao desistir." Ás vezes, desistir é o mesmo que vencer, sem travar batalhas, desistir é apenas um caminho possível, o único que o Homem às vezes conhece.
    Gostei muito.

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    1. Sim, é verdade.
      Muitas vezes desistir é progredir e não o contrário!

      Obrigado!

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  2. Acho que nunca vais escrever algo que eu não goste, Ricardo, estás de parabéns, grande rubrica!

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    1. Obrigado, Anónimo!
      Ainda bem que assim é!


      Pergunto-me se só acompanhas esta rubrica ou se também "espias" o meu blogue já que nunca te vi por lá, ou pelo menos, nunca deste sinal disso.

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    2. bem, não preciso de comentar para te ler, não é? por isso, talvez até acompanhe o teu blogue, ou talvez não.

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    3. Sim, é verdade.

      Já vi que iremos continuar com este jogo do quem é quem :)

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  3. E que a assombração lhe dê as emoções que necessita! Que excelente texto Ricardo. Parabéns :)

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    1. É verdade Cláudia!
      Que o assombrem da maneira que ele quer!

      Muito obrigado :)

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  4. Oh Ricardo, assim não dá. Prendes-me (MUITO) a cada vez que te leio. Assim não dá!

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  5. Ora, obrigado Emily!
    Espero que em Fevereiro continue a fazê-lo, pois caso contrário é sinal que estou a falhar no que faço.

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