Era terça feira, dia seis de fevereiro de dois mil e sete e eu estava a nove dias de completar os meus doces onze anos. Hoje, mais de sete anos depois, tenho a plena noção de que me vou recordar do dia, da aula a que faltei, do teste que fui fazer no dia seguinte, no dia do teu funeral. Lembrar-me-ei melhor ainda de como me foi dada a notícia. De como eu soube, a partir do momento em que vi que o meu pai me esperava no portão e não no carro. E sei também que nunca vivi a tua morte a sério. Nem chorei. Pelo menos, não a sério. Umas lágrimas caíram quando me foi dito que não resististe. Tinha-te visitado no dia anterior. Aliás, fui a última pessoa a beijar-te o rosto. Toda tu eras carinho e leite com açúcar. Ensinaste-me que posso voar. Sem saberes, mas ensinaste-me. Claro que todos dizemos que temos a melhor avó do mundo. Mas eu tive-a mesmo. Tive-te mesmo, e tenho-te ainda. Porque sem saberes me ensinaste a ser eu e a ser dona de mim. A permitir-me sair da realidade terráquea e a voar. A sobrevoar. A entender o mundo. A entender a vida. E hoje ainda te sinto. Com a mesma ingenuidade com que te sentia há mais de sete anos atrás. O tempo foi pouco. Muitas coisas de ti soube-as depois. Através da mãe. Das tias. Do avô. E viverás assim. Como já te disse. Vives em mim. Nunca morreste. Hoje choro mais do que chorei na altura. Porque finalmente sei o que é não ter alguém. Também isso tu me ensinaste, mesmo depois de partires. Mas não te peço que voltes. Porque acho que nunca chegaste a ir. Ainda hoje não acredito na tua lápide. Duas datas que tentam limitar algo que não tem limitações. Alguém que é infinito. Amo-te hoje. Se calhar mais do que na altura, porque sei o que é não te ter aqui e mesmo assim ter-te perto. O meu grande sonho é um dia ser como tu, ou chegar-te aos calcanhares, pelo menos.
A minha Avó faleceu em Junho. Hoje, agora, foi a primeira vez que tive consciência disso. Pelas tuas palavras. Obrigada.
ResponderEliminarQue texto lindo! A tua avó está, decerto, super orgulhosa da mulher que hoje és! E estará sempre ao teu lado.
ResponderEliminaressas memórias que, de tão vagas, de tão poucas, nos assombram. que nos fazem sentir pequeninos
ResponderEliminarEstas tuas palavras mexeram com as cordas do meu coração. Passei exactamente pelo mesmo com o meu avô. Tinha eu os meus 10 anos, e se bem me lembro, só aos 16 chorei as lágrimas que aos 10 não encontrei. O ano passado perdi as minhas duas avós, e sinto que lhes chorei o luto no tempo indicado. Fazem-me uma falta tremenda as minhas avós, é como se me tivessem tirado dois pilares de repente e eu me tentasse aguentar de pé. Lembro-me dos conselhos e dos cozinhados, dos dizeres delas todos os dias. Mas o meu avô, talvez por não o ter sentido partir, por não saber que o perdi, deixa-me uma saudade centenária que me humedece os dias ainda. Talvez humedeça sempre por carregar no bolso o adeus que nunca tive oportunidade de lhe dizer. Desculpa o desabafo. Palavras magníficas, mexeram mesmo comigo :)
ResponderEliminarUm beijinho!