09/03/2015

ix. simultaneidade

Querida Sofia,

Deves estranhar, certamente, esta minha carta. Provavelmente nunca reparaste em mim. Pelo menos não da mesma maneira que reparei em ti. Escrevo-te porque não fui mais capaz de esconder o que sentia. Isto não é uma carta de amor, tem calma. É muito mais do que isso. É sobre a simultaneidade de sentimentos que me povoam. Ver-te sem te ter é das maiores dores, quiçá a maior dor que toda a humanidade alguma vez irá conhecer. A tua existência reduz todos os outros à sua insignificância. Noto-te dona de ti mesma enquanto caminhas. Cheia de indecisões, mas mesmo assim convicta. Não dás nenhum passo por acaso e isso transparece-se em cada acto teu. Andas sempre tão despreocupada com o que te rodeia que nunca reparaste que nunca consigo tirar os meus olhos de ti enquanto estás perto. Já parti tanta loiça cá no café. Vens sempre à mesma hora. Pedes sempre o mesmo. Falhas sempre ao sábado porque ficas a dormir até mais tarde, já te ouvi a confidenciares isso à Susana, que trabalha comigo e é tua amiga de infância e me diz que nunca terei hipóteses contigo. Hoje decidi colocar esta carta no bolso do teu casaco enquanto foste à casa-de-banho e espero que a leias o quanto antes. Sou eu, o rapaz que todos os dias te serve o café. Que, no fundo, ainda tem esperanças que o olhes, que o vejas, que repares. E que venhas ao café amanhã, com o mesmo sorriso de sempre, mas que desta vez me sorrias a mim.

Do Simão.

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