17/05/2015

Blogue, querido blogue,

Escrevo em ti e para ti pela última vez. Deixo em ti todos os devaneios, alucinações e invenções da minha mente. Escrever hoje é muito mais para mim do que era quando "nasceste". Guardarei para mim e só para mim algo que me é tão especial. Tornar público aquilo que é tão pessoal não resulta muitas das vezes. Eu não sei escrever sem ser detalhada em relação a mim. Mesmo nos muitos textos que aqui estão que são fictícios, mesmo naqueles em que fechei os olhos, criei um cenário, personagens e me deixei levar, mesmo nesses, sou eu. Sou sempre eu quando escrevo ainda que não seja. É impossível abstrair-me totalmente de quem sou para escrever por outro alguém. Há sempre resquícios de mim. Sempre. Guardá-los-ei para mim. Mas deixar-te-ei por aqui. E venho-te visitar de vez em quando para matar as saudades. Vou continuar a reinventar-me com palavras, prometo.

12/04/2015

Como tudo passa tão rápido. Como sete meses voaram e nos trouxeram até aqui. A um mês do cortejo. A um mês de deixarmos de ser caloiros. Custou tanto chegar aqui mas queria poder reviver tudo. Nunca pensei dizer isto, mas está a ser a melhor experiência da minha vida. Queria que nunca acabasse.

17/03/2015

xvii. travar

Tenta nunca abusar do travão. Às vezes fazer o que te dá na gana é melhor do que quereres parecer bem na fotografia. Faz uma careta, daquelas feias, se for preciso. A vida não é uma auto-estrada muito menos uma estrada nacional para teres de seguir as regras do código da estrada. Travar é preciso, assim como acelerar. Mas - aí vem o ponto fundamental desta minha divagação - não somos carros. Nem outro tipo de transporte. Somos pessoas. Feitas de carne e osso. Que não vêm com airbag nem pneu suplente. Vamos tendo uns acidentes de percurso, mas havemos de continuar. Lembra-te sempre disso. Nem 8 nem 80. Às vezes é mesmo melhor 800.

16/03/2015

xvi. sótão

Mata-me saber de ti aos poucos. Sabes perfeitamente que preciso de ti a 100, quiçá a 200 %. Nunca me contarei com metades de ti, mesmo quando sei que nem as metades mereço. Gostava que me lesses. Pergunto-me se pensas tantas vezes em mim como eu tenho pensado em ti. Pergunto-me se tens fingido tantos sorrisos como eu. Espero que não. Mereces um sorriso verdadeiro. Pelo menos uma de nós que o tenha. Não quero ser memória de sótão antigo. Não quero que um dia os teus netos vasculhem o teu sótão e encontrem uma foto nossa e perguntem quem eu sou. Quero que eles me conheçam. Quero ter-te perto como sempre. És-me mundo. 

15/03/2015

xv. rubricar

Pequena confissão: não sei rubricar o meu nome, já tentei, em tempos, ter uma rubrica, mas, como nunca terei de dar autógrafos, desisti. 

14/03/2015

xiv. violeta

Porquê "sonhos cor-de-rosa" e não "sonhos outra-cor-qualquer"? Que mal tem o preto, o azul ou o violeta? Porquê "sonhos cor-de-rosa" e não "sonhos arco-íris"? Já nos chegam as limitações do dia-a-dia, ainda vamos criar limitações para os sonhos?

13/03/2015

xiii. vaca

Os sonhos também se concretizam. Não só os monetários, para esses já comecei uma vaquinha há algum tempo. Mas os imateriais, os mais difíceis de alcançar. Uma vez ou outra, atingem-se. O acaso de te ter foi isso mesmo, um acaso. Amar-te tem tanto de fácil como de difícil. Ter-te é uma sorte. Foda-se o resto do mundo, és meu.

12/03/2015

xii. aromático

Sei o teu sabor de cor e salteado, o teu aroma único que eu odiaria se não fosse o teu. Mas tudo o que te pertence ganha encanto. Não sei como o fazes. E é exatamente por não saber que te amo.

10/03/2015

x. sociologia

Só me consigo lembrar de uma amiga minha que estuda psicologia a dizer, toda irritada, "sociologia não é psicologia".

09/03/2015

ix. simultaneidade

Querida Sofia,

Deves estranhar, certamente, esta minha carta. Provavelmente nunca reparaste em mim. Pelo menos não da mesma maneira que reparei em ti. Escrevo-te porque não fui mais capaz de esconder o que sentia. Isto não é uma carta de amor, tem calma. É muito mais do que isso. É sobre a simultaneidade de sentimentos que me povoam. Ver-te sem te ter é das maiores dores, quiçá a maior dor que toda a humanidade alguma vez irá conhecer. A tua existência reduz todos os outros à sua insignificância. Noto-te dona de ti mesma enquanto caminhas. Cheia de indecisões, mas mesmo assim convicta. Não dás nenhum passo por acaso e isso transparece-se em cada acto teu. Andas sempre tão despreocupada com o que te rodeia que nunca reparaste que nunca consigo tirar os meus olhos de ti enquanto estás perto. Já parti tanta loiça cá no café. Vens sempre à mesma hora. Pedes sempre o mesmo. Falhas sempre ao sábado porque ficas a dormir até mais tarde, já te ouvi a confidenciares isso à Susana, que trabalha comigo e é tua amiga de infância e me diz que nunca terei hipóteses contigo. Hoje decidi colocar esta carta no bolso do teu casaco enquanto foste à casa-de-banho e espero que a leias o quanto antes. Sou eu, o rapaz que todos os dias te serve o café. Que, no fundo, ainda tem esperanças que o olhes, que o vejas, que repares. E que venhas ao café amanhã, com o mesmo sorriso de sempre, mas que desta vez me sorrias a mim.

Do Simão.

08/03/2015

viii. sangue-frio

Não te ter é equivalente a arrancarem-me os dentes a sangue frio. Não sou sem ti. Pura e simplesmente não te ter é igual a não me ter. Ainda sabes isso, não sabes? Mesmo depois de tudo. Uma ação não me define. Uma só ação não diz tudo de mim. Conta partes. Pequenas partes. Há partes que queres apagar mas pura e simplesmente não consegues. Ser-me-ás sempre tudo. Seres o que és é seres-me tudo. Um tudo relativo, mas um tudo. Eras um tudo na minha vida. Não te quero a ser nada. Não queiras ser nada, por favor. Não te peço desculpa porque não vale a pena. Desculpar-me era abdicar da culpa e essa eu tenho-a toda. Mas desculpa-me. Desculpa-me por ter a culpa toda e mesmo assim te querer comigo. 

07/03/2015

vii. selvagem

O mundo é a selva. Não uma selva. Mas a selva. Todos somos selvagens que se dizem racionais. Já não tenho a certeza se é por sermos selvagens que o mundo é a selva, ou se é por o mundo ser a selva que somos selvagens. Será que nós moldamos o mundo ou é o mundo que nos molda a nós? Provavelmente ambos. Mas, quem impera sobre quem? 

06/03/2015

vi. tosta

Seres-me o mundo e arredores é eu querer acordar com tostas e sumo de laranja pela manhã, mas a minha manhã, tu sabes, quando já todos acordaram e já ninguém diz "Bom dia". O meu mundo é tão mais interessante que o dos outros. Anda, faz parte dele.

05/03/2015

v. realidade

Lá por a realidade ser uma merda não significa que eu não a queira viver. Antes pelo contrário. Vivo-a porque é uma merda. Não vou entrar pelos fundamentalismos de que o que é difícil de conseguir traz mais prazer. Não. Às vezes o que é fácil é melhor. Às vezes procrastinar é o que apetece. Não só ao corpo mas também à alma. Não sei a que objetivo tenciono chegar com isto. Acho que é algo como nunca deixarmos de querer viver só porque é difícil, mas também não querermos viver só porque é fácil. 

03/03/2015

iii. romance

És a personagem de romance mais apaixonante de sempre, Chez. Isto digo eu que vivo dentro do mesmo livro que tu e que pouco sei de outros romances. Mas não preciso de conhecer o mundo para te saber o melhor. Conhecer-te bem é ter a certeza de que és inigualável. Conhecer-me bem é não duvidar por um segundo que vamos continuar a existir depois do último ponto final. Ainda que eu nunca tenha lido o livro até ao fim. Ainda que eu talvez nunca o faça.

Da Crezia do mundo. Que é como quem diz da tua Crezia.

02/03/2015

ii. simbólico

Seres-me o mundo e arredores é muito mais do que pensas. E é muito menos do que pensas, também. Isto se tu pensares. Que não penses. Pensar dói. Escrever-te nunca será simbólico. Escrever-te tem todo o valor que nós pensamos que não tem. Isto se nós pensarmos. Que não pensemos. Pensar dói. Assim como amar-te. Assim como saber que sou eu que escrevo, e que é a ti que escrevo e mesmo assim acabar este texto dizendo que foi alguém que me habita que o escreveu, para doer menos. Que escrever-te doa sempre tanto assim. 

01/03/2015

i. sacarose

Sacarose devia ser doce mas não o é, para mim. Lembra-me lutas interiores que tive de travar para conseguir mostrar-me a mim mesma de que sou capaz. Lembra-me biologia e o amor-ódio que sempre partilhamos. Hoje sacarose sabe-me a objetivo quase que cumprido e a saudade. Quem me dera que a saudade fosse doce.
«A melhor literatura é a que salva vidas mas só a que mata ganha prémios,
já pensaste nisso?»

Prometo Falhar, Pedro Chagas Freitas

25/01/2015

Seres-me o mundo e arredores era o que deveria acontecer, agora. Escrevo-te pela primeira vez, com medo de que se torne um hábito. Não queiras fazer parte dos meus devaneios insuportáveis, muito menos ser o causador deles. Estás a ir pelo caminho errado e, por mais que o errado me atraia, não sei viver assim. Já sou demasiado errada para isto poder dar certo. Entendes? Julgava que me entendias bem. Mas já tive mais certezas. Na verdade, eu sou incerteza neste preciso momento. Não, não queria dizer incerta, porque sou mesmo incerteza, dúvida, interrogação. Tenho medo de te enfrentar. Tenho medo de perceber coisas que eu não quero perceber e, então, admito, neste momento, também a mim me faltam os tomates necessários para te olhar nos olhos. Escrevi-te, pela primeira vez, com a esperança que venhas à procura deste texto. Dirigi-me a ti pela primeira vez no "seres-me o mundo e arredores", e foi para te dizer que não és o meu mundo. 

20/01/2015

«She loved mysteries so much, that she became one.»

John Green, Looking for Alaska